Tecnologia intencional no desenvolvimento de crianças com autismo

Tecnologia intencional no desenvolvimento de crianças com autismo
O uso de telas por crianças com autismo divide opiniões entre o isolamento digital e o potencial de engajamento dessas ferramentas. Longe do entretenimento passivo, plataformas gamificadas com objetivos terapêuticos claros transformam o ambiente virtual em um aliado do desenvolvimento infantil.
Para que os jogos funcionem na vida real, contudo, as intervenções precisam de embasamento científico e da mediação ativa de familiares e profissionais. Nesta entrevista, a psicóloga Paola Rocco Rodrigues explica como o hiperfoco de crianças com TEA em ambientes virtuais pode virar uma porta de entrada para ensinar regulação emocional e habilidades sociais. A especialista detalha os caminhos para transferir o aprendizado dos aplicativos para o cotidiano e defende a necessidade de políticas públicas que levem inovações tecnológicas de saúde à rede pública brasileira.
Paola Rocco Rodrigues é psicóloga infanto-juvenil, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) da Infância à Adolescência e em Orientação Parental. Atua com Avaliação Psicológica e Estimulação Neuropsicológica, dedicando-se ao desenvolvimento cognitivo, aprendizagem e psicologia escolar e clínica. É também sócia-proprietária da AutiGames e da LongView Health, onde conecta sua experiência prática à promoção da saúde mental e orientação profissional.

A recomendação geral de saúde é afastar as crianças das telas. Como os jogos de vocês conseguem reverter essa lógica e atuar como aliados no desenvolvimento de crianças com autismo?
Eu acredito que precisamos ir além da discussão sobre permitir ou proibir telas e começar a discutir qual é a finalidade da tecnologia, como ela é utilizada e o que estamos promovendo por meio dela. O problema não está simplesmente na tela, mas no uso excessivo, passivo e sem intencionalidade. Na AutiGames, a proposta é transformar o ambiente digital em uma ferramenta de aprendizagem, com objetivos terapêuticos definidos e atividades que estimulem habilidades importantes para o desenvolvimento infantil. Utilizamos o interesse que muitas crianças têm pelos jogos digitais como uma porta de entrada para trabalhar competências como reconhecimento das emoções, autorregulação, resolução de problemas, exibilidade cognitiva e habilidades sociais. A tecnologia, nesse contexto, não substitui as relações humanas. Ela pode funcionar como uma ponte para que a criança desenvolva habilidades que serão trabalhadas e estimuladas também nas relações familiares, na escola e no acompanhamento terapêutico.
“Não basta dizer para uma criança que ela precisa se acalmar quando está frustrada. Precisamos ajudá-la a perceber os sinais que antecedem a desregulação, identificar os gatilhos e desenvolver estratégias que possa utilizar naquele momento. O jogo permite ensaiar essas habilidades em um ambiente estruturado.”
A plataforma nasceu da união entre a pesquisa e o consultório. Qual foi a principal falha identificada no tratamento tradicional do autismo que motivou a criação dos jogos?
A minha experiência clínica me fez perceber que existe um desafio importante entre ensinar uma habilidade durante a intervenção e conseguir fazer com que a criança utilize esse aprendizado em situações reais do cotidiano. Às vezes, uma criança consegue identificar uma emoção ou compreender uma orientação durante uma sessão, mas ainda encontra dificuldades para aplicar esse conhecimento quando está frustrada, diante de um conflito com um colega ou quando precisa lidar com uma mudança de rotina. Percebo isto com os meus pacientes. Por exemplo, em meu consultório, junto da minha equipe, transformamos dificuldades e desafios reais em atividades funcionais e individuais para cada paciente. Isto leva tempo, raciocínio, muito estudo e disposição. Foi a partir dessa inquietação e de demandas reais que surgiu a proposta da AutiGames: aproximar o conhecimento científico da prática clínica e desenvolver recursos que tornassem o processo de aprendizagem mais acessível, interessante e funcional para as crianças. E que elas pudessem levar e experienciar também em casa? Não se trata de dizer que os tratamentos tradicionais não funcionam, mas de reconhecer que podemos ampliar as estratégias disponíveis. Acredito que precisamos pensar em intervenções que respeitem as particularidades de cada criança e favoreçam a generalização das habilidades para diferentes contextos da vida.
As crianças com autismo costumam ter facilidade e até hiperfoco em ambientes virtuais. Como vocês usam essa característica para ensinar habilidades sociais e regulação emocional?
O interesse intenso por determinados assuntos ou atividades pode ser uma importante oportunidade de conexão com a criança. Em vez de enxergar esse interesse apenas como uma dificuldade, podemos utilizá-lo como ponto de partida para construir novas aprendizagens. Na AutiGames, a proposta é aproveitar o engajamento proporcionado pelos jogos para trabalhar competências que nem sempre são fáceis de desenvolver por meio de explicações verbais tradicionais. Podemos criar situações em que a criança precise reconhecer o que está sentindo, identificar sinais do próprio corpo, pensar em alternativas diante de um problema e compreender diferentes perspectivas. Um exemplo é o trabalho com a regulação emocional. Não basta dizer para uma criança que ela precisa se acalmar quando está frustrada. Precisamos ajudá-la a perceber os sinais que antecedem a desregulação, identificar os gatilhos e desenvolver estratégias que possa utilizar naquele momento. O jogo permite ensaiar essas habilidades em um ambiente estruturado. O papel do adulto é ajudar a criança a compreender o que aconteceu, repetir sobre suas escolhas e conectar o aprendizado com as situações que enfrenta fora do ambiente digital.
Na prática do dia a dia, o que esses jogos mudam no comportamento da criança fora das telas? Como o aprendizado do aplicativo é transferido para a vida real?
Para mim, esse é um dos pontos mais importantes do projeto: o sucesso não está apenas no desempenho da criança dentro do jogo, mas na possibilidade de ela utilizar o que aprendeu na vida real. Se uma criança aprende a reconhecer a raiva em uma atividade digital, por exemplo, precisamos ajudá-la a identificar essa mesma emoção quando perde uma brincadeira, recebe um limite ou enfrenta uma situação de frustração na escola. Essa transferência exige mediação. O terapeuta, os pais e os educadores podem retomar as estratégias trabalhadas no jogo e ajudar a criança a aplicá-las em situações concretas. É importante compreender que cada criança tem seu próprio ritmo e que os resultados dependem de diferentes fatores, como suas necessidades individuais, a regularidade das intervenções e o suporte oferecido pelos adultos. A tecnologia pode facilitar o treino e tornar a aprendizagem mais envolvente, mas é a conexão entre a experiência digital e o cotidiano que dá sentido terapêutico ao recurso.
O produto é gratuito e acessível. Quem é o público que mais baixa a ferramenta hoje no Brasil, os pais, as escolas ou os terapeutas?
A AutiGames não é uma plataforma totalmente gratuita, mas foi pensada para oferecer um acesso a um valor razoável, buscando ampliar as possibilidades de utilização por famílias e profissionais. Além disso, disponibilizamos um período de experimentação para que as pessoas possam conhecer a plataforma, interagir com os jogos e compreender, na prática, como esses recursos podem contribuir para o desenvolvimento das crianças. Acredito que é muito importante que as famílias e os profissionais tenham a oportunidade de experimentar a ferramenta antes de decidir pela contratação. Assim, conseguem avaliar como os jogos podem ser incorporados à rotina da criança ou ao acompanhamento terapêutico. Nosso público envolve tanto famílias quanto psicólogos, terapeutas e educadores que buscam estratégias complementares para trabalhar habilidades socioemocionais, regulação emocional e habilidades sociais. Mais do que disponibilizar uma tecnologia, queremos oferecer uma ferramenta que tenha aplicabilidade real e faça sentido para quem está envolvido no desenvolvimento infantil. A
acessibilidade também passa por isso: oferecer um recurso com uma proposta de valor viável e permitir que as pessoas conheçam seus benefícios antes de investir.
A inclusão escolar é um desafio diário nas salas de aula brasileiras. Existe algum projeto estruturado para levar os jogos da plataforma para dentro das escolas públicas como apoio pedagógico?
Acredito muito no potencial da AutiGames como recurso complementar no contexto escolar, especialmente quando pensamos no desenvolvimento de habilidades socioemocionais, na convivência entre pares e na construção de estratégias para lidar com frustrações e conflitos. A escola é um ambiente fundamental para a generalização das aprendizagens, porque é onde a criança vivencia diariamente situações de negociação, compartilhamento, espera, cumprimento de combinados e resolução de problemas sociais. Por isso, a possibilidade de aproximar a plataforma das escolas públicas é muito relevante. Entretanto, é importante que a utilização dos jogos esteja alinhada aos objetivos pedagógicos e às necessidades dos estudantes, sem transferir para a tecnologia a responsabilidade pela inclusão. Para que uma iniciativa dessa natureza seja sustentável, precisamos pensar na orientação dos educadores, na integração com as práticas escolares e na avaliação dos resultados. Por esta razão que construímos a nossa própria metodologia, partindo da minha experiência clínica e profissional, baseado também em modelos teórico-científco. Sempre extremamente bem pesquisados e atualizados. Quanto à existência de um projeto estruturado de implementação nas escolas públicas, é necessário apresentar o estágio real das iniciativas da AutiGames. O objetivo é que a tecnologia possa contribuir para práticas inclusivas, sempre em articulação com os profissionais e as políticas de educação.
O IBGE aponta que o Brasil tem cerca de 2,4 milhões de pessoas com autismo. O que falta para que uma inovação como a de vocês se transforme em uma ferramenta de acesso universal na saúde pública?
Acredito que o Brasil tem capacidade técnica e científica para desenvolver soluções inovadoras, mas transformar uma boa iniciativa em uma ferramenta de acesso universal exige mais do que criar uma tecnologia e disponibilizá-la gratuitamente. Precisamos de articulação entre universidades, profissionais da saúde, gestores públicos, escolas e famílias. Também precisamos de estudos que avaliem os resultados, planejamento para implementação, formação dos profissionais e estratégias para alcançar pessoas que vivem em regiões com menos recursos e conectividade. Outro ponto fundamental é compreender que a inovação precisa estar conectada às políticas públicas. Para que uma ferramenta digital seja incorporada de maneira ampla à rede de saúde, é necessário demonstrar sua utilidade, estabelecer critérios de utilização e garantir que ela complemente, em vez de substituir, o cuidado individualizado. Como psicóloga, acredito que a tecnologia tem um potencial enorme para ampliar o alcance de estratégias de desenvolvimento e aprendizagem. Como alguém envolvida na construção da AutiGames, vejo essa possibilidade como uma responsabilidade:desenvolver soluções que façam sentido na prática e que possam chegar a quem realmente precisa. O meu desejo é que iniciativas nacionais como essa contribuam para que o acesso a recursos de qualidade não dependa exclusivamente da condição financeira de uma família ou do lugar onde ela vive. A inovação só cumpre plenamente seu papel social quando consegue aproximar conhecimento, cuidado e oportunidades.
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