Adaptação climática exige foco nas ações urgentes do presente
Fotografia: Nathan Carvalho
Durante décadas, a mudança do clima foi tratada como uma contagem regressiva. Os debates públicos projetavam cenários para o fim do século ou focavam em metas de descarbonização de longo prazo. Essa perspectiva gerou um distanciamento prejudicial e acabou transformando o risco em algo distante da realidade urbana.
A velocidade dos acontecimentos alterou os cronogramas planejados. A crise do clima deixou de ser uma ameaça futura e se transformou em um fato real que modifica o funcionamento das cidades no presente. Falar sobre o ambiente agora exige ir além da necessária redução de emissões de gases de efeito estufa. É urgente avançar nas estratégias de adaptação climática para preparar os territórios contra os impactos severos que acontecem neste momento.
A percepção pública acompanha essa mudança de cenário. Pesquisa recente realizada pelo instituto Quaest indica que 94% dos brasileiros afirmam sentir os efeitos das flutuações no clima em seu cotidiano. Entre os principais fenômenos identificados pela população estão as fortes ondas de calor. Esse impacto gera consequências em cadeia que pressionam o orçamento doméstico com o aumento das contas de energia elétrica e prejudicam a produção nacional de alimentos.
O despreparo das redes urbanas ficou evidente em eventos recentes que atingiram o país. As chuvas de grande escala na região Sul expuseram as falhas nos sistemas de escoamento de municípios inteiros. No Sudeste, temporais severos com rajadas que ultrapassaram os 100 km/h provocaram desabastecimento prolongado de energia em capitais populosas. Especialistas apontam que o ritmo das transformações ambientais avança de forma rápida e supera a velocidade das obras de infraestrutura das cidades.
O comprometimento da infraestrutura urbana afeta de forma direta as condições de moradia. Levantamento efetuado pela Ipsos – uma das maiores empresas de pesquisa de mercado e de opinião pública do mundo – revela que um em cada quatro brasileiros já precisou abandonar temporariamente sua residência em razão de desastres climáticos. O dado revela que a perda de segurança residencial deixou de ser um evento isolado e passou a fazer parte da experiência de parcelas expressivas da população.
Os impactos da crise climática não ocorrem de maneira uniforme no território nacional. Eles revelam e aprofundam desigualdades socioeconômicas históricas. A capacidade de se proteger de um evento extremo depende diretamente de fatores como o nível de renda familiar e a presença de infraestrutura urbana básica.
Esse recorte de vulnerabilidade fica nítido quando analisamos as condições de desenvolvimento de crianças e adolescentes. Dados demográficos levantados pel Fundo das Nações Unidas para a Infância apontam que cerca de 40 milhões de meninas e meninos no Brasil estão expostos a riscos climáticos. A falta de planejamento reflete-se no ambiente escolar. Pesquisas de mapeamento urbano mostram que um terço das capitais do país tem parte de suas escolas situadas em ilhas de calor, caracterizadas pelo excesso de concreto. Nas periferias, o cenário revela um viés de injustiça climática, onde 30% das instituições de ensino com maioria de alunos negros não possuem praças num raio de 500 metros. Esse índice cai em escolas com predominância de estudantes brancos.
O fechamento temporário de unidades de ensino devido a inundações interrompe o calendário escolar e compromete a segurança alimentar dos estudantes que dependem da merenda. Paralelamente, o sistema de saúde absorve a demanda gerada pela piora na qualidade do ar e pelo aumento de doenças ambientais.
Diante desse cenário, a adaptação climática consolidou-se como uma pauta urgente de proteção social. Modificar o modelo das novas construções e expandir as áreas verdes são medidas que encontram amplo respaldo popular. Cerca de 66% dos brasileiros apoiam ações voltadas à adaptação de infraestrutura, mesmo quando elas geram transtornos temporários no espaço público.
Continuar tratando a crise ambiental como um problema das próximas décadas é uma negligência que custa vidas, destrói moradias e aprofunda as desigualdades em nossas cidades. O Instituto Justiça direciona seus esforços para tirar a adaptação climática do campo da teoria e trazê-la para a prática das políticas públicas. A urgência não bate mais à porta, ela já está dentro das nossas casas. A verdadeira questão não é mais quando o cenário vai mudar, mas quanto tempo ainda vamos perder antes de agir.