A crise climática passou a ocupar mais espaço no noticiário à medida que deixou de ser uma projeção distante. Ainda assim, traduzir o conhecimento científico para a realidade das pessoas e ampliar a compreensão sobre os impactos das mudanças continua sendo um desafio.
Jornalista especializada em meio ambiente há mais de três décadas, Silvia Marcuzzo acompanha a evolução desse debate tanto na cobertura jornalística quanto na pesquisa acadêmica. Mestranda na área de comunicação de risco, ela passou a observar o tema também a partir da experiência vivida durante as inundações que atingiram Porto Alegre em 2024.
Nesta entrevista, Silvia fala sobre a forma como a crise climática tem sido abordada pelos meios de comunicação e sobre o que ainda falta para que a população compreenda melhor os riscos de um cenário cada vez mais presente no nosso cotidiano.
A crise climática deixou de ser uma projeção para se tornar uma experiência concreta para milhões de pessoas. O que mudou na forma de comunicar esse tema nos últimos anos?
Acho que a imprensa hoje dá muito mais cobertura ao tema, embora ainda exista dificuldade em relacionar os desastres à emergência climática e às suas consequências. Há mais espaço para essa pauta porque organismos como a Organização Meteorológica Mundial e o Copernicus vêm alertando de forma recorrente para o aumento das temperaturas globais. Nesse aspecto, houve uma mudança importante. O que ainda representa uma lacuna significativa é a conexão da questão climática com outras pautas, especialmente a econômica.
A cobertura de eventos extremos costuma ser marcada por imagens de destruição, perdas e sofrimento. Como informar sobre a gravidade da situação sem produzir uma sensação permanente de impotência?
O primeiro ponto é trabalhar com fontes confiáveis. Também é preciso compreender que existem diferentes níveis de informação. Vivemos uma busca intensa por popularidade na internet, por mais visualizações, curtidas e engajamento. Isso é problemático porque, muitas vezes, o objetivo passa a ser apenas alcançar números, e para isso algumas pessoas acabam comunicando de qualquer maneira. Os jornalistas precisam ter uma responsabilidade muito grande na hora de divulgar informações. Nesse sentido, considero preocupante esse estímulo permanente à lógica dos influenciadores e da busca por audiência a qualquer custo. As pessoas tendem a consumir aquilo que desejam ver, e os algoritmos reforçam esse comportamento ao entregar conteúdos semelhantes aos que já despertam mais interesse. É uma situação delicada, porque quem gosta de conflito, polêmica e tumulto, tende a buscar cada vez mais esse tipo de conteúdo.
Existe o risco de que a repetição de tragédias climáticas provoque fadiga ou anestesie a população? Como você avalia esse desafio para a imprensa?
A continuidade dessa cobertura exige que os veículos se preocupem em mostrar os diferentes aspectos da situação. Isso ainda é pouco considerado porque muitos meios de comunicação estão preocupados com a própria sobrevivência e também com os interesses de quem financia suas operações. Em Porto Alegre, por exemplo, os grandes veículos nem sempre mostram o que significa a ampliação de determinados empreendimentos, como a expansão de uma planta de celulose próxima à região metropolitana. Essas transformações têm impactos amplos e exigem reflexão. Também falta sensibilidade para compreender as oportunidades e os desafios envolvidos nesse processo. Mas essa responsabilidade não pode ficar apenas nas mãos da imprensa. Tenho estudado comunicação de risco e acredito que o poder público deveria assumir um papel muito mais ativo na tradução dessas informações para a população. É preciso explicar, por exemplo, o que significa a elevação repentina do nível de um rio e quais riscos isso representa. Hoje, a população ainda não tem plena consciência da importância de cobrar dos veículos de comunicação, do poder público e dos demais responsáveis uma atuação mais comprometida com a qualidade das informações que são transmitidas.
O medo ainda é uma ferramenta legítima para comunicar a gravidade da crise climática ou já chegamos a um ponto em que ele produz mais paralisia do que mobilização?
O medo paralisa, especialmente quando os riscos não são explicados de forma adequada. Encontrar o equilíbrio entre sensibilizar as pessoas e mobilizá-las é uma das grandes questões da comunicação climática. Eu mesma vivi essa situação. Moro em uma área de Porto Alegre que foi atingida pela inundação e insistia para que saíssemos dali. Meu marido preferia esperar mais um pouco. As pessoas raramente acreditam que uma tragédia vai acontecer com elas. Por isso, reagir diante de um perigo iminente é algo muito complexo. O calor extremo, por exemplo, também representa um risco. Muitos dias consecutivos de temperaturas elevadas exigem cuidados específicos, como hidratação adequada, evitar exposição nos horários mais quentes e adotar outras medidas de proteção. Ser mais resistente e preparado diante dessas situações exige informação de qualidade. Também exige equilíbrio emocional para lidar com um cenário cada vez mais desafiador. Vivemos um momento em que é preciso aprender a não se deixar abalar constantemente. Grande parte dos veículos de comunicação busca curtidas, visualizações e seguidores, e é necessário estar atento para não entrar nessa lógica. Tanto jornalistas quanto o público precisam recorrer a fontes confiáveis que apresentem a situação como ela realmente é. Isso exige autoconhecimento e um trabalho permanente para manter serenidade e calma. No fim, o medo excessivo e a paralisia costumam ser muito mais prejudiciais.
O que mais te incomoda na forma como a crise climática costuma ser comunicada atualmente? Por outro lado, o que tem sido feito de forma eficaz?
O que mais me incomoda é a desinformação. Fico muito irritada com o negacionismo climático e com o fato de ainda existirem parlamentares e segmentos da sociedade que questionam algo que já está amplamente demonstrado. Também me preocupa a atuação do Congresso Nacional em mudanças que enfraquecem a legislação ambiental e tornam a sociedade mais vulnerável. Muitas dessas alterações acontecem por pressão de interesses econômicos. Cito como exemplos a flexibilização do licenciamento ambiental para determinadas atividades, em áreas urbanas e mudanças em planos diretores que permitem maior adensamento urbano sem considerar adequadamente questões como impermeabilização do solo e adaptação climática. São medidas que dificultam a adaptação das cidades e a mitigação dos impactos das mudanças climáticas. Isso me incomoda profundamente.
Jornalistas, gestores públicos e profissionais envolvidos nessa área precisam alertar a população de forma permanente. Ainda temos um longo caminho a percorrer para aperfeiçoar essa comunicação.”
Silvia Marcuzzo
Depois das enchentes e inundações de 2024 no RS, o debate climático ganhou espaço no cotidiano de muitas pessoas. O que aquela tragédia ensinou sobre os limites e as possibilidades da comunicação climática?
Quando penso em comunicação climática, lembro da cobertura que fiz sobre o desastre de 2023 no Vale do Taquari. Produzi uma reportagem para a Agência Pública e fiquei muito impactada pela forma como a comunicação com a população foi conduzida. Havia sinais claros dos riscos que poderiam ocorrer e, ainda assim, muitas pessoas não receberam informações adequadas sobre a gravidade da situação. Depois dessa experiência, participei de eventos sobre desastres, me aproximei do tema e desenvolvi um projeto de pesquisa para o mestrado. Quando iniciei o curso, em 2024, fui diretamente afetada pela inundação em Porto Alegre, o que acabou mudando completamente a perspectiva da minha pesquisa. Hoje estudo como a Prefeitura de Porto Alegre trabalhou a comunicação de risco durante o desastre hidrometeorológico de 2024. Isso me permitiu compreender melhor um campo que ainda estou investigando e que é muito diferente da comunicação institucional tradicional. A comunicação de risco pressupõe diálogo entre comunidades, governos, especialistas e diferentes segmentos da sociedade. Não se trata apenas de informar de forma vertical aquilo que está sendo feito pelo poder público.
Hoje, embora a Defesa Civil e os municípios tenham atribuições definidas, a sociedade ainda não despertou plenamente para os seus direitos em situações de desastre. Isso ficou evidente durante o desastre. Em Porto Alegre e em diversos municípios, muitas pessoas não sabiam para onde ir, o que fazer, qual era a rota de fuga ou quais procedimentos deveriam adotar. Foi uma situação muito peculiar e, ao mesmo tempo, inacreditável. O poder público não conseguiu responder a todas as demandas, e a própria sociedade precisou se organizar para enfrentar a crise. Essa experiência reforçou minha percepção sobre a importância da comunicação de risco. Trata-se de um trabalho baseado em prevenção, que deve acontecer continuamente e não apenas quando o desastre já está em curso. Jornalistas, gestores públicos e profissionais envolvidos nessa área precisam alertar a população de forma permanente. Ainda temos um longo caminho a percorrer para aperfeiçoar essa comunicação. Quando falamos em comunicação climática, estamos tratando de um campo muito amplo, que envolve meteorologia, sociologia, comportamento das comunidades e ocupação do espaço urbano. Muitos pesquisadores, inclusive, questionam o próprio conceito de desastre natural quando se trata de cidades construídas e ocupadas em áreas de risco. Por isso, há diversos aspectos conectados à comunicação climática e à comunicação de risco que ainda são tratados de forma fragmentada. A imprensa, de modo geral, ainda não despertou para essa complexidade.
Em sua avaliação, o jornalismo tem conseguido explicar adequadamente a diferença entre eventos climáticos específicos, como o El Niño, e o fenômeno mais amplo das mudanças climáticas? Onde ainda há ruídos nessa comunicação?
Existem diferentes formas de fazer jornalismo e diferentes níveis de compreensão sobre o tema. Muitas vezes, a qualidade da cobertura está relacionada ao grau de conhecimento que os próprios profissionais possuem sobre o assunto. Em boa parte dos veículos locais e do jornalismo do interior, (no caso, RS) ainda existe pouca compreensão sobre a dimensão do que estamos vivendo. Falta entendimento sobre o significado das transformações climáticas em curso e sobre seus impactos. Por isso, considero essa uma questão complexa. Não é possível comparar a cobertura realizada por veículos especializados, como a revista Piauí, o Nexo ou o portal O Eco, com a de muitos veículos locais que não possuem equipes dedicadas ao tema. No meu trabalho, procuro dialogar também com pessoas que estão fora da chamada bolha ambiental, alcançando públicos que ainda não estão familiarizados com essas discussões. Hoje existe uma grande diversidade de níveis de conhecimento sobre o tema. Sempre que possível, procuro contribuir para que as pessoas compreendam melhor o significado do que estamos vivendo. Também acredito que as universidades poderiam trabalhar essa pauta de forma mais consistente na formação dos futuros profissionais. Atuo na área ambiental há mais de 30 anos. Comecei minha trajetória no Correio do Povo, em 1993, e desde então participei de diversas iniciativas de capacitação voltadas ao aprimoramento da cobertura ambiental e climática. Esse trabalho precisa estar mais presente nas redações. Os veículos especializados já avançaram bastante, mas o público em geral ainda tem pouco acesso a esse tipo de conteúdo.
Quando você pensa na comunicação climática dos próximos anos, o que considera essencial para manter as pessoas informadas e mobilizadas?
Acho fundamental transformar em pauta questões que consigam conectar os grandes fenômenos globais com situações concretas e mais próximas da realidade das pessoas. Também é necessário esclarecer os ruídos e equívocos que ainda cercam o debate climático. Essa discussão não deve ficar restrita aos veículos de comunicação. Ela precisa estar presente em toda a sociedade. Muitas pessoas ainda não têm dimensão do que está acontecendo. Precisamos avançar em uma espécie de alfabetização climática e ambiental. Tenho estudado esse tema e há autores que já falam em “desastroceno”, a era dos desastres. A expressão procura traduzir a crescente frequência de eventos extremos que estamos observando. Quando penso na comunicação climática, considero essencial explicar por que determinadas áreas alagam, por que algumas regiões são mais vulneráveis do que outras e quais fatores contribuem para esses processos. As pessoas também precisam compreender melhor como cobrar o poder público. É importante entender por que determinadas obras são necessárias, por que áreas de retenção de água precisam ser preservadas e qual é o papel da arborização urbana na adaptação às mudanças climáticas. Muitas vezes, imprensa, escolas e sociedade não conseguem estabelecer a conexão entre questões cotidianas e a crise climática. E essa ligação é fundamental. A comunicação sobre o clima precisa mostrar o que cada pessoa pode fazer em sua própria realidade. Ao mesmo tempo, é impossível ignorar que decisões tomadas por um número reduzido de grandes grupos econômicos e centros de poder têm enorme influência sobre o futuro do planeta. Estamos falando de setores ligados aos combustíveis fósseis, às grandes plataformas tecnológicas e a grupos com enorme capacidade de influência política e econômica. Muitas decisões que afetam o clima global passam por esses atores. Por isso, é cada vez mais importante investir em leitura, informação de qualidade e qualificação permanente. Isso vale especialmente para quem trabalha com comunicação e tem a responsabilidade de transmitir informações corretas para a sociedade. As mudanças climáticas são um tema extremamente complexo. Não é possível simplificá-las a ponto de sugerir que apenas ações individuais serão suficientes para resolver o problema. As iniciativas locais são importantes, mas também é preciso compreender os fatores estruturais e econômicos que influenciam a crise climática em escala global.
Vivemos em um sistema em que interesses econômicos frequentemente prevalecem sobre outras prioridades. Essa é uma realidade que precisa fazer parte da reflexão quando discutimos comunicação climática.
As opiniões e declarações emitidas nas entrevista são de inteira responsabilidade do entrevistado, não refletindo, necessariamente, o posicionamento deste blog.