Urbanista defende Soluções Baseadas na Natureza como proteção contra impacto climático

A urgência de repensar o modelo de desenvolvimento das metrópoles ganha contornos dramáticos diante dos dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), que revelam que a mortalidade por enchentes, secas e tempestades foi 15 vezes maior em regiões de alta vulnerabilidade climática entre 2010 e 2020 no comparativo com regiões de baixa vulnerabilidade. Nas periferias e favelas, onde esse risco se concentra, a implementação de Soluções Baseadas na Natureza (SbN) deve ser prioridade máxima para proteger as populações que mais sofrem com os eventos extremos. No entanto, para evitar a “gentrificação verde” — processo que encarece o custo de vida e expulsa os moradores tradicionais —, essas intervenções urbanas precisam ser indissociáveis de processos participativos, zoneamento protetivo e habitação segura, sob o risco de restringir o acesso a espaços seguros apenas àqueles que podem pagar.
Rafael Drumond é arquiteto, urbanista e mestre em Planejamento Urbano. Acredita que as cidades são políticas e se dedica a mostrar como essa ideia explica a vida que levamos nelas. Trabalha com estudos, projetos e divulgação voltados a políticas públicas urbanas. Atualmente, atua em projetos de urbanização, unindo essa experiência prática à reflexão que compartilha publicamente.

Nesta entrevista, o arquiteto e urbanista Rafael Drumond explica que o esgotamento da tradicional “infraestrutura cinza” exige que as cidades parem de tentar expulsar a água e passem a se adaptar a ela, integrando a engenharia tradicional às soluções baseadas na natureza. Ao rebater o mito de que as SbN seriam financeiramente inviáveis para a realidade brasileira, o urbanista cita o caso bem-sucedido da Lagoa de Piratininga, em Niterói, e lembra que o investimento em infraestrutura verde é ínfimo quando comparado aos prejuízos bilionários de tragédias como a do Rio Grande do Sul. Drumond detalha ainda caminhos para superar o “apagão técnico” institucional nas prefeituras e a necessidade de transformar planos de governo em projetos de Estado que sobrevivam aos ciclos eleitorais.
O conceito de “Cidades Esponja”, amplamente difundido a partir de metrópoles chinesas como Wuhan, foca em reter e infiltrar a água no solo em vez de expulsá-la o mais rápido possível. Como traduzir essa experiência internacional para a realidade urbana e financeira das grandes metrópoles brasileiras?
É perfeitamente possível adaptar esse conceito à realidade brasileira. E isso não significa
construir uma infraestrutura cara ou importar uma tecnologia sofisticada. Curitiba, por exemplo, já utiliza parques que funcionam também como áreas de armazenamento temporário durante as chuvas há décadas. Em períodos normais, são espaços de lazer; durante uma chuva intensa, passam a cumprir uma função de drenagem. Do ponto de vista financeiro, talvez o maior desafio seja justamente abandonar a ideia de que a adaptação climática depende exclusivamente de grandes obras. Soluções distribuídas podem ser implantadas gradualmente, aproveitando obras que a cidade já precisa realizar, como a requalificação de ruas, praças, parques e sistemas de drenagem. Isso permite distribuir os investimentos ao longo do tempo e associar diferentes fontes de financiamento. Adaptar as experiências internacionais às características de cada território brasileiro, utilizando o relevo, os espaços disponíveis e a própria natureza como parte da infraestrutura, pode ser um caminho possível.
Parques inundáveis de Copenhague ou os sistemas de macro-drenagem verde da Europa costumam ser vistos no Brasil como projetos de alta tecnologia e economicamente inviáveis. Na prática das capitais brasileiras, as SbN são realmente mais caras do que as tradicionais obras de concreto, ou o verdadeiro problema está na falta de visão de longo prazo sobre o custo-benefício?
Alguns modelos de SbN podem, sim, ser mais caros, principalmente quando envolvem tecnologias específicas. Mas isso não significa que eles sejam necessariamente mais caros que as obras tradicionais de drenagem. A Lagoa de Piratininga, em Niterói, sofreu com o processo de urbanização e poluição de suas águas, o que modificou a paisagem. Hoje, ela é um exemplo de como os diversos dispositivos de SbN podem ser utilizados, em um mesmo espaço, com funções diferentes. A lagoa, com 35 mil m², recebeu cerca de R$ 100 milhões em investimentos, utilizando diversas SbN na sua requalificação. As bacias de sedimentação ajudam a reter poluentes, enquanto os jardins filtrantes contribuem para a melhoria da qualidade da água. Já os jardins de chuva e as biovaletas favorecem a retenção e a infiltração das águas pluviais. Tudo isso é integrado a espaços públicos de lazer e convivência para a população. Quando pensamos em gastos, podemos ser levados a ignorar que as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul causaram um prejuízo imediato de mais de R$ 800 milhões apenas em Porto Alegre e de bilhões em todo o estado.
“No final, a água não vai se adaptar às nossas cidades. Nós é que precisamos adaptar as cidades à água.”
As enchentes no Rio Grande do Sul e os alagamentos crônicos em metrópoles como São Paulo e Nova York mostram que o modelo tradicional de engenharia — focado em diques, bueiros e canalizações de rios — esgotou sua capacidade de resposta. Qual é o principal limite da “infraestrutura cinza” quando confrontada com o novo regime de chuvas extremas?
O principal limite da infraestrutura cinza está na própria lógica com que ela foi concebida: historicamente, o objetivo foi captar e retirar a água da cidade o mais rapidamente possível. Esse processo aconteceu por meio da canalização de rios, que perderam suas margens para dar espaço à expansão imobiliária e à criação de avenidas, além da remoção de áreas verdes como forma de simplificar e baratear a manutenção urbana, tudo isso enquanto se usam cada vez mais materiais que contribuem para a intensificação das ilhas de calor. O modelo de drenagem tradicional continua sendo necessário, mas o problema aparece quando dependemos exclusivamente dele. À medida que a cidade se impermeabiliza e os e ventos extremos aumentam, esse sistema pode atingir sua capacidade muito rapidamente. Por isso, as SbN não devem substituir a infraestrutura cinza, mas trabalhar junto com ela. No final, a água não vai se adaptar às nossas cidades. Nós é que precisamos adaptar as cidades à água.
Você aponta com frequência que estados e municípios enfrentam dificuldades para
tirar projetos de SbN do papel porque a formação profissional de engenheiros, arquitetos e gestores públicos ainda está presa ao século passado. Como solucionar esse apagão técnico para que boas propostas superem as barreiras burocráticas e se transformem em editais e termos de referência viáveis?
Esse “apagão técnico” não se resolve apenas com cursos sobre SbN. É preciso criar capacidade institucional para transformar uma boa ideia em um projeto executável. É preciso compreender que o processo de experimentar essas tecnologias também é um processo de formação. Enquanto os profissionais aprendem a trabalhar com essas soluções, nós conseguimos aperfeiçoar os projetos e, com o tempo, poderemos criar modelos e manuais que possam ser replicados nas diferentes cidades brasileiras. O processo já está acontecendo, mas poderia ser acelerado com mais investimento e abertura para essas novas soluções. No fim, precisamos de mecanismos capazes de identificar o problema, escolher e dimensionar a solução, estimar custos, definir manutenção e transformar isso em um termo de referência ou edital.
Com a chegada iminente das épocas de chuva intensa, o tempo joga contra as prefeituras metropolitanas. Pensando em ações emergenciais de curto prazo, existem Soluções baseadas na Natureza de implementação rápida que possam mitigar os impactos imediatos dos alagamentos nas vias urbanas?
Intervenções pontuais de curto prazo têm capacidade limitada e não serão suficientes para conter alagamentos na próxima estação de chuvas. Medidas ágeis, como a reabertura de espaços impermeabilizados em vias de asfalto e ambientes públicos, a substituição desses materiais e o incentivo à permeabilidade nos lotes privados ajudam na mitigação, mas não resolvem o problema sozinhas. Para que a redução dos alagamentos seja efetiva, precisamos olhar para o futuro e planejar intervenções mais densas e estruturantes na malha urbana. O papel do curto prazo, portanto, é dar início a essa transição. Nesse sentido, o Plano Diretor de Belo Horizonte, aprovado em 2019, já apontava 44 áreas da cidade consideradas de elevado risco de inundação. O mapeamento dessas regiões traz a agilidade necessária para direcionar os projetos para onde eles são mais urgentes.
A desigualdade social nas metrópoles faz com que os eventos extremos atinjam de forma severa as periferias e as favelas. Como implementar SbN nessas áreas vulneráveis de forma prioritária, sem causar o que o urbanismo chama de “gentrificação verde” , isto é, quando a valorização ambiental do bairro encarece o custo de vida e expulsa os moradores tradicionais?
Segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), entre 2010 e 2020 a mortalidade por enchentes, secas e tempestades foi 15 vezes maior em regiões de alta vulnerabilidade climática do que em regiões de baixa vulnerabilidade. E é justamente nas periferias e favelas que essa vulnerabilidade se concentra. É importante priorizar as áreas de alta vulnerabilidade, porque são justamente essas populações as que mais sofrem com os eventos extremos. Mas é preciso pensar também na permanência dessas pessoas no território; para isso, é necessário que haja um processo participativo, a proteção desses territórios por meio do zoneamento e um enfrentamento às desigualdades. Caso contrário, apenas aqueles que podem pagar terão acesso a espaços seguros. Naqueles casos em que a permanência representa um risco ambiental, como foi o caso dos deslizamentos em Juiz de Fora/MG neste ano, uma alternativa seria garantir habitação segura em outras áreas da cidade, com acesso à infraestrutura e à cidade formal. Assim, conseguimos enfrentar dois problemas ao mesmo tempo: proteger a população de áreas de risco e também contribuir para a redução do déficit habitacional.
O planejamento de adaptação climática urbana exige décadas para se consolidar, mas a política metropolitana funciona em ciclos eleitorais de quatro anos. Como estruturar leis urbanísticas e planos diretores para que as SbN permaneçam como políticas de Estado obrigatórias e sobrevivam à troca de governantes?
Essa é uma das grandes dificuldades do planejamento urbano: uma cidade é construída ao longo de décadas, mas os governos trabalham em ciclos muito mais curtos. Por isso, precisamos pensar menos em planos de governo e mais em planos para a própria cidade. Que cidade queremos ter daqui a 50 anos? A partir dessa visão de longo prazo, é possível estabelecer metas e diretrizes que atravessem diferentes governos e não dependam da bandeira política de quem está no poder. A adaptação climática também não deve ser tratada como uma política isolada. Quando se investe em mobilidade, habitação e meio ambiente, aumenta-se ao mesmo tempo a resiliência e melhora a qualidade de vida da população. Ou seja, o enfrentamento às mudanças climáticas pode vir a partir do investimento em outros setores.
Em metrópoles densamente povoadas, onde cada metro quadrado é disputado pelo
mercado imobiliário e pela malha viária, criar “espaço para a água” parece um desafio quase intransponível. Como as SbN, como jardins de chuva e tetos verdes, podem ser integradas a bairros centrais que já estão consolidado e totalmente pavimentados?
É um desafio, porque os bairros centrais já são extremamente impermeabilizados, mas isso não significa que não existam possibilidades. Nesse caso, precisamos pensar em uma rede de intervenções menores e distribuídas pelo território. O Plano Diretor de Belo Horizonte trouxe um mecanismo denominado Gentileza Urbana. O objetivo era dar desconto na outorga onerosa em novas construções que adotassem dispositivos capazes de aumentar a área permeável, como os telhados verdes. Com base em estudos dos quais tive a oportunidade de participar, chegou-se à conclusão de que as regiões centrais e mais adensadas da cidade seriam as mais interessadas em assumir esse compromisso, devido ao alto interesse do mercado imobiliário nesses espaços. E como esse é o setor que participa diretamente da transformação física das nossas cidades e que mais se beneficia da infraestrutura, da valorização e dos investimentos públicos nesses territórios, é necessária à sua inclusão de forma a contribuir para a mudança do cenário, pois não faz sentido que todo o custo da adaptação climática recaia sobre o poder público ou a população.
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